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A juventude, descoberta e os primeiros técnicos na carreira de Pelé

Edson Arantes do Nascimento nasceu em 23 de outubro de 1940, em Três Corações (MG). Ainda adolescente, chamou a atenção do ex-jogador e observador Waldemar de Brito, que o encaminhou ao Santos. Aos 15 anos Pelé já treinava no clube praiano e, sob a coordenação do técnico Luís Alonso Pérez — conhecido como Lula — integrou a transição das categorias de base ao time profissional.

No Santos, a presença de Lula foi decisiva não apenas por abrir espaço no elenco, mas por proteger a jovem promessa da pressão externa. Lula entendia que Pelé precisava de liberdade criativa em campo e de um processo de afirmação gradual: convívio diário com profissionais, rodagem em partidas menos decisivas e inserção em jogos oficiais quando a condição técnica e física permitiam.

Métodos de treino e funções em campo no início da trajetória

Os técnicos e preparadores do Santos moldaram a base técnica e competitiva de Pelé com práticas que combinavam tradição brasileira e preocupação pelo rendimento físico:

  • Ênfase na técnica: trabalho diário de domínio de bola, drible em espaços reduzidos e finalizações repetidas.
  • Jogos reduzidos: treinos em grupos pequenos para desenvolver visão de jogo, mobilidade e combinação com os companheiros.
  • Treino de finalização e improviso: exercícios que simulavam situações de jogo real, estimulando a tomada de decisão rápida.
  • Preparação física integrada: repetição de corridas, resistência e recuperação guiadas pelos preparadores para suportar calendário intenso.

Assistentes como Antoninho (Antônio Fernandes), entre outros membros do staff técnico, ajudaram a transpor os métodos de treino aos jogos, ajustando posição e função de Pelé conforme as necessidades táticas do time: ora como centroavante móvel, ora recuando para ligar o meio-campo ao ataque.

Primeiras convocações e o impacto de Feola: tática, disciplina e projeção internacional

A entrada de Pelé na Seleção Brasileira, culminando na Copa do Mundo de 1958, trouxe novos responsáveis pela sua evolução. O técnico Vicente Feola adotou o sistema 4-2-4, que valorizava a mobilidade ofensiva e deixava espaços que um jogador com a habilidade de Pelé podia explorar. Feola soube dosar confiança e disciplina: permitiu liberdade criativa em campo, mas inseriu rotinas táticas e coletivas que profissionalizaram ainda mais o jovem atacante.

No ambiente da Seleção, o staff técnico elevou a preparação física e o foco em treinamentos específicos para o torneio — treinos táticos, ensaios de bolas paradas e simulações de pressão. Para Pelé, isso significou aprender a interpretar funções diversas dentro de um esquema coletivo vencedor, antecipando adaptações que marcariam fases posteriores de sua carreira.

Esses primeiros treinadores e preparadores — no Santos e na Seleção — construíram a base técnica, tática e física que permitiu a Pelé transformar talento bruto em desempenho consistente. A próxima seção explora como mudanças de metodologia, novas lideranças e decisões táticas no período de ouro do Santos e nas campanhas seguintes da Seleção aprofundaram e redefiniram essa evolução.

O apogeu no Santos: tática coletiva, staff ampliado e a formação de uma máquina de vitórias

No auge da década de 1960, o Santos deixou de ser apenas um clube com grande talento e se tornou uma das equipes mais organizadas taticamente do futebol mundial — e o staff técnico teve papel central nesse processo. Embora Lula continuasse sendo a referência na condução do grupo, a rotina diária passou a envolver uma equipe mais ampla: preparadores físicos que sistematizaram cargas, treinadores-adjuntos que testavam variantes táticas e massagistas/fisioterapeutas responsáveis por recuperações rápidas em calendários extenuantes. Antoninho, como elo entre o trabalho de campo e a estratégia, ajudou a operacionalizar exercícios que transformavam ideias em movimentos repetíveis em jogo.

Taticamente, o Santos explorou a mobilidade de Pelé como peça-chave para desorganizar defesas. Treinos específicos trabalhavam combinações de três toques, deslocamentos em diagonal e linhas de passe que permitiam ao centroavante móvel — ora mais adiantado, ora caindo entre linhas — criar espaços para Coutinho, Pepe e os pontas. Sessões de jogos reduzidos eram calibradas para reforçar leituras coletivas: a finalidade não era apenas treinar o drible ou a finalização isolada, mas construir mecanismos de covoamento (movimentos de atração de marcação) e linhas de penetração coordenadas.

O staff de preparação física introduziu uma periodização rudimentar: microciclos com variação de intensidade que buscavam manter o ápice de forma em torneios prioritários (Taças Libertadores, torneios continentais e o calendário nacional). Equipes de fisiologia e tratamento garantiam que Pelé suportasse viagens internacionais e amistosos na Europa, tornando possível manter alto rendimento apesar do desgaste. A integração entre treinador, preparador físico e staff médico permitia decisões táticas baseadas em condicionamento — por exemplo, reduzir sprints exigidos de Pelé em partidas de menor exigência física, preservando-o para duelos decisivos.

Além disso, o papel de líderes em campo como Zito influenciou a leitura de jogo de Pelé. O staff técnico valorizava treinos que simulavam partidas com marcador duro, pressão alta e transições rápidas, fazendo de Pelé não apenas o finalizador, mas o primeiro articulador da transição ofensiva do Santos. Assim, as decisões táticas do clube — rotação posicional, preparação física específica e treino de padrões coletivos — consolidaram uma etapa em que Pelé evoluiu do talento isolado para peça central de um coletivo altamente treinado.

Transição final e o New York Cosmos: adaptações individuais, papel institucional e novas demandas

O último capítulo da carreira competitiva de Pelé exigiu uma reprogramação integral do trabalho do staff: a idade impôs limitações físicas, e a função técnica passou a exigir mais inteligência posicional e menos volume de corrida. No Santos e nas últimas convocações da Seleção foi possível observar preparadores propondo sessões individualizadas — focadas em timing de posicionamento, leitura de espaços e finalização com menor demanda de deslocamento — e protocolos de recuperação mais sofisticados do que os primeiros anos.

Quando Pelé se mudou para o New York Cosmos, a dinâmica mudou novamente. A chegada do craque foi tratada tanto como um projeto esportivo quanto midiático; dirigentes como Clive Toye trabalharam para ajustar a logística do clube e do staff para preservar o atleta. Treinos passaram a ser planejados em função do protagonismo e do marketing, mas também houve adaptações reais: exercícios técnicos mais curtos, simulações táticas que privilegiavam passes de ruptura e aproveitamento de espaços, além do gerenciamento de minutos em campo por parte dos treinadores para otimizar impacto em cada jogo.

O staff norte-americano, frequentemente formado por profissionais com abordagens diferentes das sul-americanas, trouxe ênfase em preparação física orientada por métricas e na recuperação mecanizada (banhos frios, tratamentos preventivos). Essa combinação permitiu a Pelé manter eficiência nas partidas decisivas, mesmo com menos intensidade acumulada. Em suma, nas fases finais a interação entre treinadores, preparadores e equipe médica passou de formação de base para gestão fina do talento — preservando o legado técnico do jogador enquanto adaptava sua utilização às novas realidades físicas e institucionais.

Impacto duradouro dos treinadores e do staff técnico

Mais do que formar um jogador extraordinário, os treinadores, preparadores e profissionais de apoio que trabalharam com Pelé deixaram um conjunto de práticas e princípios que continuam a ecoar no futebol contemporâneo. A combinação entre liberdade criativa e disciplina tática, a atenção crescente à preparação física integrada e a transição para planos individualizados de treino anteciparam abordagens hoje consolidadas em clubes profissionais e seleções ao redor do mundo.

Em termos de função em campo, a exploração da mobilidade do centroavante — ora referência no Santos, ora redirecionada na Seleção e adaptada no Cosmos — ajudou a redefinir o papel do atacante moderno, inspirando variações de posicionamento e reciclagem de funções ofensivas em gerações subsequentes. Do ponto de vista institucional, a ampliação do staff e a profissionalização de rotinas médicas e de recuperação foram passos essenciais para transformar gestão de atletas em ciência aplicada.

Por fim, o estudo das interações entre Pelé e seus técnicos revela um fenômeno central: o talento floresce quando encontrado por um ambiente técnico capaz de traduzir qualidades individuais em mecanismos coletivos — e quando há flexibilidade para ajustar essas funções às condições físicas, táticas e midiáticas de cada fase da carreira.

Fecho: lições e memória para além dos números

Refletir sobre a trajetória de Pelé a partir do prisma dos treinadores e do staff é reconhecer que grandes carreiras não são produzidas por um único nome, mas por redes de decisões e cuidado técnico. Essas redes abrangeram desde treinos de campo aparentemente simples até protocolos de recuperação e escolhas táticas tomadas em minutos decisivos — todas com impacto direto na longevidade e na expressão do atleta.

As lições extraídas vão além de fórmulas prontas: apontam para a importância de escutar o jogador, de contextualizar métodos segundo fases de vida esportiva e de integrar disciplina e criatividade em arranjos coletivos. Elas também lembram que muitos protagonistas dessa história — preparadores, fisioterapeutas, adjuntos — frequentemente permanecem na sombra, apesar de seu papel formativo ser decisivo.

Preservar e estudar essas memórias técnicas é, portanto, um convite para aprimorar práticas atuais e futuras. Não se trata apenas de celebrar um ícone, mas de entender como sistemas humanos e metodológicos convergiram para ampliar o alcance de um talento: uma lição valiosa para treinadores, gestores e estudiosos do futebol que buscam combinar cuidado, ciência e sensibilidade no desenvolvimento de jogadores.