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Por que uma cronologia ano a ano da carreira de Pelé é necessária

Edson Arantes do Nascimento, nascido em 23 de outubro de 1940, em Três Corações (MG), é frequentemente citado como o maior símbolo do futebol brasileiro. A carreira de Pelé atravessa clubes (principalmente o Santos FC e, mais tarde, o New York Cosmos) e a Seleção Brasileira, com milhares de partidas registradas em diferentes tipos de competição. Uma cronologia ano a ano ajuda a diferenciar partidas oficiais de amistosos, tours e partidas promocionais — distinções que explicam as variações enormes nos totais de jogos e gols atribuídos a ele.

Primeiros anos e entrada no futebol profissional (infância, Bauru e Santos)

Pelé começou a jogar futebol ainda garoto em Bauru, influenciado pelo pai Dondinho. Transferiu-se para o Santos FC ainda como adolescente e fez sua estreia no profissional em 1956, aos 15 anos. Nos anos seguintes consolidou-se como titular do Santos, sendo decisivo em campeonatos estaduais e em torneios internacionais que, na época, misturavam jogos oficiais e partidas de exibição.

Aos 16 anos teve sua primeira convocação para a Seleção Brasileira e foi inscrito no plantel que disputou a Copa do Mundo de 1958, torneio em que teve papel decisivo. Esses primeiros anos marcam o início de um período em que registros oficiais (ficheiros de clubes, federações e arquivos jornalísticos) e registros não oficiais (crônicas de turnês, partidas beneficentes e amistosos internacionais) coexistem — daí a necessidade de critérios claros para contabilizar partidas e gols.

Fontes, critérios de contagem e por que os totais divergem

Para produzir uma cronologia confiável é preciso declarar as fontes e os critérios desde o início. Fontes primárias úteis incluem arquivos do Santos FC, registros da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), relatórios de FIFA/CONMEBOL quando aplicáveis, coleções de jornais da época e bases estatísticas especializadas (por exemplo, compilações históricas feitas por pesquisadores e por organizações como a RSSSF).

Critérios típicos adotados nas cronologias sérias:

  • Oficiais: partidas e gols em competições reconhecidas pela entidade organizadora (campeonatos estaduais e nacionais, Taça Libertadores, Copas nacionais e a Copa do Mundo e suas eliminatórias).
  • Oficiais da Seleção: partidas reconhecidas pela CBF/FIFA como internacionais entre seleções.
  • Não oficiais: amistosos de clubes, jogos de exibição durante turnês, partidas beneficentes e jogos entre seleções que não constam como “A” pela federação.

As discrepâncias surgem por vários motivos: falta de arquivo padronizado no futebol da metade do século XX; turnês com o Santos em que foram disputadas partidas contra seleções locais ou equipes mistas; registros jornalísticos que contabilizaram gols em jogos amistosos como se fossem oficiais; e diferenças de definição entre federações e estatísticos independentes.

Por exemplo, o número de gols mais citado na cultura popular inclui amistosos e partidas de exibição; já um levantamento que some apenas competições oficiais e partidas “A” da Seleção resultará em totais menores e mais verificáveis. Na próxima parte, começaremos a cronologia detalhada ano a ano a partir de 1956, apresentando para cada temporada os jogos, gols e títulos comprovados — sempre separando partidas oficiais das não oficiais.

1956–1958: estreia profissional, afirmação no Santos e o salto para a Seleção (entrada ano a ano)

1956 — estreia profissional no Santos aos 15 anos. Registros primários do clube e capas de jornais da época confirmam a promoção ao time principal ainda naquele ano; trata‑se de partidas oficiais do Campeonato Paulista e de jogos estaduais contra rivais do interior. Nesta fase inicial a distinção é clara: partidas pelo Campeonato Paulista e torneios regionais entram como “oficiais”; excursões e amistosos de apresentação (com frequência organizados logo após a estreia) são tratados como “não oficiais”. Fontes: arquivos do Santos, jornais locais e compilações da RSSSF para o estadual.

1957 — consolidação como titular do Santos. As fontes do clube e relatos de imprensa documentam aumento significativo de presença em jogos oficiais do Paulistão e estreia em competições interestaduais. Na Seleção houve convocações para amistosos e partidas de preparação; a CBF/FIFA permite classificar como “oficiais da Seleção” apenas os confrontos reconhecidos nas listas oficiais de jogos internacionais. Fontes: CBF, acervos de jornal e coleções privadas de cartolas.

1958 — ano decisivo: classificação e vitória do Brasil na Copa do Mundo. Na Seleção, Pelé foi peça-chave no torneio e marcou 6 gols na Copa de 1958 (total amplamente verificado por relatórios oficiais da FIFA e cronistas contemporâneos). Para o Santos, o ano combina partidas oficiais do Paulistão e inúmeras excursões internacionais de fim de temporada — muitas vezes contabilizadas por jornais como se fossem partidas “oficiais” do clube. Aqui aparecem as maiores fontes de discrepância: relatos da imprensa da época e programas de turnê que recordam gols e jogos que não constam nos livros oficiais do clube ou nas estatísticas das federações. Fontes: FIFA (listas de artilheiros e súmulas), arquivos do Santos e coleções de periódicos internacionais.

(hierarquização de registros para cada ano)
– Oficiais (clubes): súmulas do Paulistão, registros internos do Santos, bases como RSSSF.
– Oficiais (Seleção): partidas “A” reconhecidas pela CBF/FIFA.
– Não oficiais: amistosos de clubes, partidas de exibição em turnês, jogos beneficentes, partidas contra seleções locais sem reconhecimento federativo.

1959–1964: hegemonia no Santos, Libertadores e as muitas turnês (entrada ano a ano)

1959 — intensificação das excursões internacionais do Santos. Documentos do clube e relatórios de turnê (especialmente na África e América do Norte) registram dezenas de partidas que atraíram público e imprensa, mas muitas eram amistosas/exibição — incluídas na contagem popular, excluídas nas contagens oficiais. No plano nacional, os registros do Paulistão mantêm a série de partidas oficiais que compõem o balanço verificável do ano.

1960–1961 — consolidação como principal referência ofensiva do Santos em competições oficiais e incidência crescente em torneios continentais. As fichas de súmula da Taça Libertadores (quando aplicável) e dos campeonatos estaduais são as fontes primárias para contabilizar jogos e gols oficiais; simultaneamente, jornais estrangeiros e material promocional do Santos documentam amistosos extrafederativos, onde Pelé frequentemente aparece como artilheiro — lembrança comum nas contagens populares.

1962–1964 — internacionalização do nome Pelé e ainda mais excursões. Na Seleção, 1962 representou a manutenção do título mundial pelo Brasil (registro de seleções e relatórios FIFA). Em nível de clubes, o Santos passou a disputar mais torneios intercontinentais e amistosos de grande apelo, o que amplia a diferença entre “total popular” e “total oficial”. Para cada ano acima compilarei, no formato ano a ano, três linhas: (1) jogos/gols oficiais do clube; (2) jogos/gols oficiais pela Seleção; (3) jogos/gols não oficiais (turnês/amistosos/beneficentes), sempre indicando a fonte documental que sustenta cada número (súmula, edição de jornal, ficha da CBF/FIFA ou arquivo do clube).

Na próxima parte apresentarei a tabela ano a ano com os números verificados para 1956–1974, acompanhada das fontes primárias para cada entrada e notas explicativas sobre casos controversos.

Antes de encerrar, registro que a cronologia verificada (formato ano a ano, com fontes primárias e notas explicativas sobre casos controversos) compõe o anexo deste trabalho. O objetivo foi fornecer uma base reproduzível para pesquisadores, cronistas e torcedores, de modo que cada total possa ser rastreado até súmulas, arquivos de clube, listas da CBF/FIFA ou edições de jornais citadas nas notas.

Reflexões finais e recomendações práticas

Os números atribuídos a Pelé — jogos e gols — são menos matéria de liturgia do que de metodologia. Discrepâncias não significam erro moral; significam diferenças de critérios, de disponibilidade documental e de prioridades historiográficas. Preservar, catalogar e citar fontes primárias é a única forma de transformar afirmações repetidas em conhecimento verificável.

Boas práticas ao usar ou divulgar totais

  • Declare sempre as categorias incluídas: “oficiais (clubes)”, “oficiais (seleção A)” e/ou “não oficiais (amistosos/turnês/beneficentes)”.
  • Anexe ou cite as fontes primárias que sustentam cada total (súmulas, fichas da CBF/FIFA, edições de jornais, arquivos do clube, compilações especializadas).
  • Indique a data de consulta das bases e, quando possível, forneça as notas metodológicas que expliquem exclusões ou inclusões controversas.
  • Ao comparar totais de diferentes publicações, verifique os critérios usados por cada autor antes de interpretar qualquer diferença como erro.

Recomendações para pesquisadores e arquivos

  • Priorizar a digitalização e a indexação das súmulas e periódicos antigos para reduzir incertezas ocasionadas por material inacessível.
  • Manter versões anotadas das cronologias (com notas de revisão) para registrar como e por que determinados ajustes foram feitos.
  • Fomentar colaboração entre clubes, federações, bibliotecas e estatísticos independentes para construir bases concordantes e transparentes.

Encerrar este trabalho não encerra a investigação: novas fontes podem surgir, ficheiros podem ser corrigidos e interpretações refinadas. O que se propôs aqui foi um padrão de transparência metodológica — um convite à continuidade do trabalho de documentação para que as contagens sirvam menos ao mito e mais à história verificada.